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REABERTURA: COMO OS CENTROS DE MODA DA CAPITAL PAULISTA ESTÃO REAGINDO

Depois de uma semana da autorização de reabertura do comércio, lojistas relatam suas impressões 

No dia 10 de junho, a prefeitura de São Paulo liberou – de forma gradual e em horários escalonados -, reabertura de lojas de rua e imobiliárias na cidade, e logo no dia 11, foi autorizada a abertura de shoppings centers (atacado e varejo), também em horários e condições restritas. 

Apesar de em algumas localidades haver aglomerações para a entrada e/ou circulação de pessoas, as vendas físicas ainda continuam tímidas, mesmo com a aposta do Dia dos Namorados no meio. 

Conforme conversado no próprio dia 10 de junho com Nelson Tranquez Jr., vice-presidente da CDL Bom Retiro (Câmara dos Dirigentes Lojistas do Bom Retiro), e passada uma semana da reabertura autorizada, as vendas físicas no bairro continuam pequenas. 

“Ainda sob o impacto da pandemia com seus números assustadores, e com muitos setores ainda parados, imaginamos que as pessoas ainda têm bastante receio de circular, a não ser nos locais de comércio popular, onde não há nenhum controle, tampouco fiscalização das autoridades”, comenta Nelson. Segundo ele, esta situação tem forçado lojistas e fabricantes a buscar novas formas de atender aos clientes e tentar vender seus produtos. “E-comerce, WhatsApp,vendas por telefone, drive-thru, frete grátis, têm sido a saída para continuarmos trabalhando enquanto assimilamos esse “novo” normal enquanto o mercado tenta encontrar seu novo ponto de equilíbrio.”

Marcelo Moon, da Aramodu, marca de moda feminina que completou 30 anos no mercado em 2019, faz coro a Tranquez. Com sede no Bom Retiro, a Aramodu, assim como todas as outras marcas do bairro, tiveram que se reinventar na forma de venda, já que seu público é o atacadista e maciçamente presencial. 

Mesmo utilizando o WhatsApp há alguns anos para estar mais próximos aos seus clientes, inclusive por conta das recessões econômicas recorrentes no país, e mais recentemente o Instagram como uma plataforma importante para a marca, a imersão nas vendas online já vem acompanhando a Aramodu há algum tempo, fazendo com que a empresa, em nenhum momento, desde o início da pandemia, interrompesse o fluxo de vendas. 

“É um desafio grande para mim, principalmente, que estou tomando a frente do digital na marca, e existe a parte cultural também, onde estamos mudando bastante a mentalidade. Essa crise da pandemia acelerou muito a digitalização, até mesmo para os nossos próprios clientes, que tinham uma dificuldade para entender o digital e agora viram sua importância. Hoje eu entendo a importância e o peso que ele tem na nossa estratégia”, destaca Moon. “Além disso, estamos na plataforma atacadista de pedidos online que se chama Vesti, feita por um fornecedor que veio aqui para a região justamente para suprir essa lacuna, fazendo a ponte entre o cliente e a marca de atacado. Foi outro grande desafio, quando implantei essa plataforma ano passado, por parte da mentalidade de algumas vendedoras e clientes terem essa resistência em entender a importância do digital. Mas segui firme e fui fazendo os ajustes, tendo bastante persistência, e hoje o fortalecimento do online tem sido muito bom, está ajudando muito como ferramenta de facilitação do processo de vendas, inclusive para as vendedoras”, completa.  

COMÉRCIO DO BRÁS

Numa das regiões de comércio popular mais movimentadas do país, o Brás, em São Paulo, que reúne cerca de 5 mil lojas (somando em torno de 4 mil confecções), vem sofrendo com um dilema: ao mesmo tempo que lojistas estavam ansiosos pela reabertura, com todos os protocolos sanitários cuidadosamente elaborados e aprovados pela prefeitura, dividem um injusto espaço com vendedores ambulantes, que ocupam as calçadas e ruas do bairro sem restrição de horário, de distanciamento social, normas de higiene ou qualquer fiscalização. E ainda vendendo produtos pirateados, contrabandeados e bem abaixo do cobrado pelas lojas, que têm que pagar impostos para funcionar. 

“Apesar de entendermos o lado social dessa atividade informal, é fato que ela extrapola os limites do necessário e vai para um lucro exorbitante desses “comerciantes”, que vendem contrabando, pirataria, mercadorias roubadas, cigarros, comida sem higiene etc. Isso gera uma concorrência desleal com os lojistas formalmente estabelecidos, que por não conseguirem competir com essa informalidade, acabam fechando suas portas e, por conseguinte, gerando desemprego e falta de contribuição aos cofres públicos. Quer dizer, muitas pessoas defendem o lado social desse comércio irregular, mas esquecem que os funcionários com carteira assinada dependem da loja que trabalham funcionando para terem seus empregos e dignidade em suas vidas”, diz Fauze Yunes, conselheiro executivo da Alobrás (Associação de Lojistas do Brás). 

Ele conta que desde foi sinalizada a reabertura do comércio pela prefeitura de São Paulo, a Alobrás produziu informativos a respeito, bem como vídeos instrutivos sobre os procedimentos a serem adotados, e que esses materiais foram amplamente divulgados pela entidade. Porém, a fiscalização do cumprimento dos protocolos estabelecidos fica a cargo da prefeitura, ficando a cargo da Alobrás a função de informar e esclarecer dúvidas dos comerciantes. 

“Quem não cumpre os procedimentos está sujeito às sanções da legislação aplicável, como multa, fechamento do estabelecimento e até a perda do alvará de funcionamento. Isso seria um trabalho da própria prefeitura, mas nessa questão, infelizmente, ela não cumpre seu papel, que é o de fiscalizar o comércio irregular/informal de rua. Por mais que digam que fazem apreensões de mercadorias contrabandeadas, elas são muito aquém do necessário. Como esses “comerciantes” não estão sujeitos a nenhum tipo de carga tributária e a mercadoria não tem origem, fica muito barata. Isso gera uma aglomeração escandalosa de pessoas durante a madrugada – horário que sequer deveria haver atividade nas ruas do bairro -, que fica até o amanhecer do dia. A prefeitura sabe de tudo isso, pois sempre a informamos, mas, por algum motivo, não faz nada. Enfim, o problema não é da loja para dentro, pois os lojistas estão respeitando as normas estabelecidas pela prefeitura, mas sim da loja para fora, onde há acúmulo de pessoas em determinadas regiões, onde a informalidade é maior”, desabafa Yunes. 

Em meio a concorrência desleal com os ambulantes, o conselheiro da Alobrás revela um dado curioso: os lojistas formais estavam vendendo mais com as portas fechadas, por meio de ferramentas online e WhatsApp. Além de driblar o empecilho na porta de suas lojas, literalmente, há ainda a questão da insegurança de muitos clientes em circular pelas ruas com a pandemia em plena atividade, com a quantidade de casos de contaminação e mortes pela Covid-19 crescendo cada dia mais. Já no quesito sacoleiras, que vêm de outras cidades e estados para comprar no centro comercial, Yunes diz que não há nenhum protocolo estabelecido neste sentido, mas ressalta que as empresas de ônibus têm que respeitar as normas firmadas pelos governos municipais e estaduais de cada região. 

Rua Oscar Freire, nos Jardins.

PELAS RUAS DOS JARDINS

No contraponto ao comércio atacadista do Brás e Bom Retiro, a região dos Jardins concentra o comércio de luxo da capital paulista. Assim como as outras associações, a Associação Comercial dos Jardins (Oscar Freire), também elaborou protocolos para a reabertura do comércio na região, que foram apresentados à prefeitura, assumindo um termo de compromisso. 

“Nos propusemos a informar o protocolo e a dar suporte sempre que necessário ao lojista”, diz Allen Ferraudo, gerente geral da Associação Comercial dos Jardins. “Nesse atual momento, todos temos que ser responsáveis e entender que cada um deve fazer sua parte, a responsabilidade é compartilhada. O sucesso na manutenção do comércio aberto está na mão do lojista, de quem quer manter o seu negócio funcionando, ninguém quer ver o aumento do contágio e, com isso, ter de fechar as portas novamente”, reforça.  

Ferraudo diz que os lojistas, de acordo com sua capacidade e disponibilidade de pessoas, aderiram à reabertura, já as que não abriram, possivelmente se deve a questões contratuais, reformas para melhorias ou, ainda, estão na preparação para o atendimento completo das exigências do protocolo firmado entre a associação e a prefeitura. Ele comenta que, desde a reabertura no dia 10 de junho – com movimento ainda baixo -, não foram registrados casos nos Jardins e Itaim Bibi, até o momento, de punição formal pelo não cumprimento protocolar, e que a associação está à disposição (de segunda à sexta, das 11h às 17h) para informar e esclarecer quaisquer dúvidas dos lojistas de sua região de atuação. “Estamos frente a um processo de co-responsabilidade, isto é, todo cidadão – seja cliente, funcionário, gerente ou proprietário -, deve contribuir com a fiscalização dos protocolos sanitários e denunciar aos canais formais para que a prefeitura possa agir.”

Ainda de acordo com Ferraudo, reabertura de comércio num período pandêmico é uma coisa delicada. “Nós, da associação, indicamos a saída de casa para compras de produtos que sejam necessários. Temos que aprender a consumir de forma consciente, e os Jardins são um bom exemplo para isso. O consumo por impulso ou desejo irão voltar, mas não será nesse momento; as pessoas precisam sentir segurança.” 

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