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A ALTA-COSTURA - PARTE III

Regras, posturas, criações, cifras e elitizações

 

Por João Braga*

 

 Como vimos anteriormente, as regras que determinam e legitimam uma criação de alta-costura foram elaboradas durante os anos da II Guerra Mundial - na gestão de Lucien Lelong como presidente - com o principal intuito de não deixar que a sede da Chambre Syndicale fosse transferida, pela Gestapo, de Paris para Berlim e Viena. Portanto, a alta-costura tornou-se patrimônio cultural parisiense e, consequentemente, só existindo na capital francesa.

Sendo esta a primeira premissa das regras do setor, a alta-costura passa a ser sinônimo de Paris e, por extensão, também de refinamento e sofisticação. Contudo, há outras exigências que regulam e compõem a realidade deste extremo luxo, requinte e liberdade de criação na área de moda. Também fazem parte das regras outras premissas, tais como:

  • as roupas devem ser feitas em Paris.
  • a sede da maison deve ser em prédio próprio, que tenha alguma referência estético-arquitetônica e estar localizada no Triângulo de Ouro da Alta-Costura ou Triângulo do Altíssimo Luxo de Paris, isto é, espaço delimitado entre a Avenue des Champs-Élyseés (lado esquerdo de quem sobe em direção ao Arco do Triunfo), Avenue Marceau e Avenue Montaigne, no 16ème arrondisement.
  • apresentar as coleções pelo menos duas vezes por ano, em data fixada pela Chambre Syndicale, ou seja, Primavera-Verão e Outono-Inverno.
  • ser agregado a uma comissão de classificação e de controle da própria Chambre Syndicale.
  • que os modelos das roupas sejam originais e exclusivamente criados pelo costureiro da maison ou por seus(as) modelistas permanentes.
  • que as roupas sejam executadas nos próprios ateliês.
  • que os ateliês tenham no mínimo 20 pessoas legalmente empregadas somente para a produção das roupas.
  • que sejam apresentados no mínimo 25 looks por estação (a partir de março de 2006). Até então eram 35 looks e, anteriormente, já chegaram a ser 75 looks por temporada.
  • que os modelos sejam apresentados em tecidos.
  • que as coleções sejam mostradas pelo menos em 3 manequins vivas.
  • que a sede da maison tenha um grande salão para possíveis desfiles particulares.
  • que cada roupa seja única, feita a mão e sob medida.
  • que a cliente prove as roupas.
  • que cada maison tenha a sua contra-mestra, isto é, la première (a primeira) que há de responder por tudo na ausência do costureiro.
  • que a casa de costura tenha um perfume com o nome da maison ou do costureiro ou um nome fantasia associado à casa.

Com essas regras, genericamente aqui apresentadas, e outros detalhes que qualificam uma roupa de alta-costura (também chamada de couture-création [costura-criação]), este universo torna-se altamente elitista e sofisticado - prestígio adquirido desde Worth e legitimado com os privilégios para o setor durante os anos da II Guerra Mundial - daí estas roupas tornarem-se verdadeiramente caras, pois além de um valor agregado de prestígio há também o valor reconhecido de mercado.

Com relação às cifras, um tailleur dos mais simples pode custar entre 15 e 20 mil dólares; um vestido de festa, mais elaborado, chega a ser vendido entre 40, 50, 60 mil dólares ou bem mais; um casaco de pele ou um vestido de noiva costuma valer em torno de 300 mil dólares. Dessa maneira, é um setor seletivo e praticamente inacessível ao grande público; contudo, é com o perfume que as maisons se sustentam financeiramente. Um frasco de perfume original e assinado que custe aproximadamente entre 80 e 120 dólares é bem mais acessível e oferece prestígio e status ao usuário e, obviamente, dá o grande sustento às casas.

O segundo grupo de produtos que mais dá retorno financeiro às maisons é a cosmética (cremes hidratantes, sombras, batons, bases, esmaltes, etc.); a terceira linha de produtos é composta pelos acessórios (bolsas, cintos, sapatos, meias, óculos, chapéus, luvas, lenços); a quarta linha de produtos corresponde às roupas produzidas em série pela mesma casa, ou seja, as roupas de prêt-à-porter; e a quinta e última linha de produtos que dá retorno financeiro é a própria roupa de alta-costura. Geralmente esta é a ordem dos produtos mais vendidos, que podem variar de acordo com questões circunstanciais da própria moda. Todavia, faz-se necessário armar toda uma grande e suntuosa apresentação - é considerado um investimento, e não um gasto - por meio de monumentais desfiles para um seleto grupo de convidados e uns 2.500 jornalistas e fotógrafos a cada desfile, credenciados pela Chambre Syndicale, para o evento tenha visibilidade mercadológica para a casa continuar a vender os produtos mais acessíveis e de uso cotidiano.

Os desfiles de moda em geral e, especialmente os de alta-costura, costumam usar da estratégia de trabalhar com uma espécie de lente de aumento para que fique evidenciado o que o costureiro quer mostrar naquela determinada estação, ou seja, sua visão e interpretação de mundo naquele momento específico. Não é que as pessoas tenham que usar ou se vestir com todo aquele exagero das roupas, maquiagem e cabelos dos desfiles; faz assim quem o quiser. Por ser um verdadeiro laboratório de experimentações em formas, volumes, novos têxteis, novas combinações de cores e/ou outras prerrogativas, o setor da alta-costura se dá o direito da prática de todas essas exacerbações para que sejam filtradas as ideias ali lançadas e se tornem mais usáveis, comerciais e de fácil produção nas propostas do prêt-à-porter.

 

João Braga é estilista, escritor e professor de História da Moda das faculdades Faap, Santa Marcelina e Casa do Saber.

Foto: Fernando Silveira/Faap/Divulgação

 

 

 

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