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Ponto de Vista

Por Giuseppe Tropi Somma*

 

Procuram-se patrocinadores para um grande filme!

Eu havia perdido as esperanças, mas depois de constatar várias empresas patrocinando o filme "Lula, o filho do Brasil", estou vendo a possibilidade de realizar um velho sonho, lançar meu filme:

"Peppe, o filho da...Nação!".

Procuro empreiteiras, grandes escritórios de publicidade, empresas de serviços públicos, bancos, Petrobras, etc., que queiram patrocinar um filme de uma grande história de vida... que é a minha.

Para vocês entenderem, eu não posso falar de mim mesmo.     Fica mal. Então vou me colocar no posto do historiador e falar      de mim na terceira pessoa. Outra coisa: Não vou falar das coisas boas, mas só das ruins, para impressionar e comover aqueles   que assistirem ao filme. Ok?

Giuseppe nasceu em 1935, pobre, num pequeno povoado, da  zona rural, na cidadela de Pimonte, que fica na região  montanhosa da província de Nápoles, Itália. O 6º filho de uma família de 10 (para quem não sabe, como hoje o Lula dá Bolsa Família para o povo não trabalhar, naquela época o Mussolini   dava Bolsa Filho para o povo fazer filhos, então os casais mandavam brasa!); de pai semianalfabeto e de mãe muito trabalhadeira (lógico, o Mussolini só pagava prêmio para nascer, não para sustentar, os pais tinham que rebolar), viveu sua infância em plena turbulência da 2ª Guerra Mundial, repleta de tragédias, miséria generalizada e pessoas passando fome. Já aos 3 anos de idade foi vítima de uma doença de fígado (que se fosse hoje, logo seria diagnosticada como hepatite C) que durou 4 anos para sarar, porque o médico (filho da mãe...) mandava tomar muito leite (e que se fosse hoje, diria para tomar qualquer coisa, menos leite...). Alimentação habitual: ao meio-dia, sanduíche de pão com uma fatia de tomate (ou folha de salada ou até fatia de cebola); à noite, sopa de macarrão com feijão (ou com batata, ou com ervilha, etc.); de manhã o resto da sopa da noite anterior, bem assada na frigideira (para tirar o gosto de requentado), posicionada numa mesinha improvisada (ou cadeira tombada) e seis ou sete crianças em volta, comendo na mesma frigideira. Na rotina do dia a dia, quando não tinha o que fazer, o Giuseppe jogava bola na rua com os amiguinhos. Mas a bola era especial, era ele mesmo que fabricava: pegava um pedaço de meia velha feminina, fazia um nó num dos lados, virava-a ao avesso e acabava de enchê-la com todo o tipo de retalhos velhos. Pronto, era a divertida bola de pobre! Outros tipos de brinquedo, nem pensar. Quando tinha trabalho, a rotina era: ir apanhar lenha na roça, a 5 km morros acima; ou ir capinar a roça com outras irmãs (também menores); ou esvaziar a fossa asséptica e levar estrumes em balde, na cabeça, até a roça. Quando seu pai negociava uma área para desmatar e comercializar a madeira, lá ia ele, com 6, 7 ou 8 anos, ajudar a carregar os mourões do mato até o asfalto. Balas? Doces? Eram só presentes em dias de festas, quando eram. Nos domingos de manhã era obrigação ir à missa com familiares. Aliás, a "santa" mãe Vincenza educava todos de acordo com os princípios católicos, e dizia: "quando puder, deve sempre ajudar e fazer o bem aos outros, sendo sempre honesto e trabalhador; mas, cuidado, tem de ser esperto, não para "embrulhar" os outros, mas para não ser "embrulhado"." E ela dava tanta atenção para cada filho que cada um teve a sensação de ter sido tratado com carinho especial. Escola? Pública até os 9 anos, mas, visto a baixa qualidade (tanto lá, como aqui), aos nove anos a mãe arranjou uma escola de freiras, muito melhor, numa cidade vizinha. Só que o Giuseppe, então com 9 anos, junto com a irmãzinha de 11, todos os dias precisava se deslocar morro abaixo, e a pé, 18 km: 9 para descer e 9 para subir. Depois de um ano, sua santa mãe pôs-se a campo e arranjou para os dois irmãozinhos um colégio interno, de freiras, destinado aos órfãos de guerra, lá na praia de Meta, próxima a Sorrento. Alimentação no colégio: todos os dias caldo de ervilha, de grão de bico ou de feijão, alimento este que a madre superiora conseguia lá nos Estados Unidos, doado pelas freiras americanas e associações beneficentes. A mãe de Giuseppe, ciente dessa escassez alimentar, todos os domingos ia visitar o filho e a irmã e lá levava uma maleta cheia de comida. Mas isso não adiantava. O Giuseppe, vendo que seus amiguinhos não recebiam visitas de seus pais (vítimas da guerra), com eles dividia tudo, sobrando uma migalha para cada um.

Terminado o primário, tinha de procurar outra escola para o ginásio, pois a pública só oferecia o ensino básico. A lutadora mãe pôs-se a campo novamente e conseguiu que ele entrasse num seminário de padres seculares. Mas avisou ao filho: "Já que não temos dinheiro para uma escola particular, você entra e estuda no seminário; se futuramente você sentir que não tem vocação e quiser desistir, desista.".

Foi o que aconteceu. Feito o ginásio e o liceu clássico, percebeu que não tinha vocação para aquilo e, depois de oito anos de batina, Giuseppe voltou ao mundo laico. Cursou 2 anos de técnico comercial e lá veio ele para o Brasil, onde já morava uma irmã.

Aqui, sem conhecer a língua, contentou-se com um salário mínimo, oferecido num dos escritórios das Indústrias Matarazzo. Conforme progredia no domínio do português, Giuseppe ia mudando de atividade, chegando, entre um emprego e outro, a engraxar sapatos por 90 dias num salão da Rua Maria Paula, no centro de São Paulo. Foi também diretor-geral de uma multinacional, o que não o entusiasmava, pois o seu projeto de vida era ser empresário. O resto de vida do Giuseppe foi só sucesso obedecendo rigorosamente aos três ensinamentos de berço: honestidade, trabalho e inteligência.

Você, leitor, emocionou-se com a história? É lógico que não! Nos tempos de hoje, ainda há milhões de brasileiros com histórias muito mais tristes! A minha foi ruim, mas se eu pudesse voltar atrás, gostaria de viver exatamente os mesmos problemas, porque os sofrimentos e as privações servem de adubo para o sucesso da vida! Não é à toa que os jovens de hoje militam nas drogas, libertinagens e delinquência, porque a sociedade deu assistencialismo aos seus pais já libertinos e estes só passaram maus exemplos para os filhos.

Aliás, brincadeira à parte. Há milhões de pessoas por aí cuja biografia merece um filme como o meu: "Peppe, o filho da... Pátria!"; mas, não sei por quê, as empreiteiras só patrocinam presidentes da república.

 

Giuseppe Tropi Somma é empresário e presidente da ABRAMACO.

giuseppe@cavemac.com.br

Foto: Divulgação

*Reprodução liberada*

 

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