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Publicado em 23/01/2012
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VOCÊ SABIA?

 

 

Por João Braga

 

 

Memento mori

 

 

Frase latina que significa: “Lembra-te de que hás de morrer” ou “Lembra-te que és mortal”

 

A morte sempre foi uma grande interrogação. Ela é entendida como o fim, o desaparecimento, o término da existência humana, e que nos leva à reflexão sobre o sentido da própria vida. Não resta dúvida que a morte é uma certeza e, por sermos dotados de razão e discernimento, somos os únicos seres viventes que sabemos que vamos morrer; mas é aí que talvez esteja presente uma significativa dignidade da condição humana, pois, ao refletirmos sobre a morte, podemos compreender o sentido da redenção e a consequente salvação.
É interessante ressaltar que, ao falarmos sobre a morte, referimo-nos às coisas positivas e seus respectivos fins e não às coisas negativas, pois estas já trazem em si o desejo do fim absoluto. A morte é um processo natural de evolução e progresso para a vida espiritual, pois simboliza aspectos de renovação e do próprio nascimento, sendo preciso ir ainda mais distante, pois devemos morrer para renascer à vida superior. Se não morremos à imperfeição, não nascemos, o que se pode chamar de “progresso iniciático”. Daí podemos entender o significado etimológico da palavra “defunto” – aquele que volta à fonte, sendo esta fonte o próprio Pai, de onde viemos – e cujo local de repouso da matéria é o cemitério, ou seja, o local da dormição.
A morte, por ser um mistério, costuma ser angustiante para os materialistas, chegando até mesmo a ser assustadora, pois é a real transformação, mudança incontestável, processo irreversível, fatalidade que, inclusive, nos leva ao luto, à introspecção, e nos introduz ao mundo do desconhecido, porém, é também a certeza de acesso a uma nova vida, libertando a ascensão do espírito e dando-nos o poder da regeneração.
O significado da morte é amplo, pois, além de simbolizar o fim, é entendido como processo libertador de penúrias, de preocupações, de sofrimentos, e abre as portas ao reino espiritual e à verdadeira vida.
A materialização da morte normalmente é representada pelo esqueleto ou caveira, ou até mesmo somente pelo crânio, o que é facilmente compreendido, pois fala por si só, é altamente eloquente sem nada dizer, uma vez que carrega consigo o silêncio absoluto. Sendo então o esqueleto a personificação da própria morte, esta também está associada à decomposição, à desmaterialização e à consequente transmutação. O esqueleto é a significação da travessia ao desconhecido e à introdução no secreto mundo do além.
Ao longo dos tempos, as manifestações artísticas sempre refletiram sobre a morte e a trabalharam por meio de práticas e usos que contribuíram, de uma maneira ou de outra, para o entendimento dos processos culturais e contextualizações da morte como consequência da efemeridade da vida terrena.
Na Antiguidade, esqueletos costumavam servir de facilitadores para a realização de ações mágicas; todavia, na Roma Antiga os generais do exército ao voltarem vitoriosos de uma guerra adentravam a capital do império numa biga, conduzida por um escravo, que percorria parte da cidade sendo aclamado pelo povo, para ser finalmente saudado no Senado. Nesse percurso, um segundo escravo acompanhava a pé esse carro conduzido por dois cavalos e, a cada 500 jardas, esse escravo subia à biga e sussurrava ao ouvido do general “memento mori”, para que as glórias deste mundo terreno não subissem à cabeça e favorecessem posturas de arrogância, autossuficiência, vanglória etc. Já em banquetes desse mesmo período da Antiguidade clássica pagã era comum ter presente um esqueleto articulado, para simbolizar um deus ou um morto em especial e para estimular as pessoas presentes a usufruírem melhor e mais intensamente os passageiros momentos de prazer.
Na Europa gótica, os monges trapistas (membros da ordem religiosa de Trapa, uma ramificação da ordem beneditina dos cistercienses e que fora fundada em 1140) repetiam a expressão latina memento mori como saudação, sendo praticamente a única coisa que falavam diariamente, por causa do voto de silêncio, no intuito de ressaltar a transitoriedade da vida humana – lembrando que cada monge trapista costumava cavar a própria sepultura. Também na Idade Média, as caveiras e/ou esqueletos aparecem como personagens das famosas “danças macabras”, num sentido semelhante ao da presença das caveiras em alguns banquetes da Antiguidade.
Já no Renascimento, há o aparecimento de um tipo de joia contendo um crânio ou o próprio esqueleto usado como pingente de colar, broche ou anel denominado memento mori para também lembrar a breve passagem da vida terrena. Durante o século 17, período de guerras, muitas pragas e consequentes mortes abundantes, a joia memento mori esteve muito em evidência, como atitude religiosa para ressaltar a brevidade desta vida comparada à da vida eterna, ou até mesmo usada em memória da partida de um ente específico, como foi o caso das joias memento mori usadas na Inglaterra desse período, alusivas à execução do rei Charles I, em 1649, considerado um mártir pela realeza local. Ainda no Renascimento, Hamlet, de Shakespeare, reflete sobre as questões da vida com um crânio na mão: “To be or not to be; this is the question”. E assim a arte ao longo das épocas, de maneira mais erudita ou de forma mais popular, reflete e questiona a vida/morte por meio de esqueletos e/ou crânios.
Temos uma manifestação religiosa e popular muito interessante no Dia de Finados no México, com monumentais festas para lembrar os mortos, com imagens curiosíssimas de caveiras com variedades diversas de cores e formas estilizadas do esqueleto humano.
Portanto, não é novidade alguma o aparecimento da imagem da caveira de diversas formas gráficas planas e/ou tridimensionais na área das artes visuais. Artistas plásticos a usam em suas obras; joalheiros a ornam com diamantes; modernosos a tatuam no corpo; o estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch sempre a teve como logotipo de sua marca; e, atualmente, é elemento presente em diversas coleções de produtos de design e moda como estamparia, bijuteria e outros produtos de consumo de uma sociedade capitalista que faz da simbologia da morte uma maneira de ganhos numerários. Até mesmo em design de produtos (telefones, chaveiros etc.) a caveira se faz presente, em objetos que muitas vezes beiram o kitsch, porém hoje considerados mais cult do que de gosto duvidoso. A caveira já até atingiu o universo do luxo, sendo objeto de colecionismo para várias pessoas, como foi o caso do costureiro Yves Saint Laurent, que tinha algumas.
Seja onde ou da forma que for, não importando o material, ou em qualquer área da cultura material, a caveira continua sendo símbolo de perenidade, transitoriedade, efemeridade, brevidade desta passagem terrena rumo ao plano superior, e talvez a moda a tenha absorvido como linguagem visual contemporânea questionando inconscientemente a sua própria efemeridade e nos forçando a refletir sobre o quão veloz e perene são as imposições de atitude e consumo de produtos de moda nos dias atuais por meio de posturas incontroláveis e insaciáveis, talvez nos convidando a uma renovação de atitude, já que a caveira é o símbolo da morte mas também de renovação e introdução a um mundo mais sublime e menos material.

 

P.S.: Dedico este artigo à ex-aluna e amiga Cris Thamer, colecionadora de incríveis caveiras.

João Braga é estilista, escritor e professor de história da moda das faculdades Faap e Santa Marcelina e da Casa do Saber.

Foto: Fernando Silveira/Faap/Divulgação