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Por Roselaine Araujo
PESQUISO, LOGO CRIO Leia, viaje, ouça, observe e troque ideias. Desperte todos os sentidos para mapear referências de qualidade para suas coleções

O que seria do mundo sem as pesquisas? Fundamentais para o desenvolvimento de toda e qualquer atividade, são elas que norteiam a profusão de ideias humanas. Na moda, não seria diferente. Por trás de cada coleção de sucesso existe o trabalho minucioso de profissionais que observam à sua volta com olhos de águia, já que referências não faltam para a criação do vestuário. No entanto, para quem deseja fazer um trabalho eficiente nessa área, é preciso deixar claro desde o princípio a diferença entre pesquisa de tendências e de coleção, como esclarece Letícia Diniz, designer de moda do Senai Vestuário. “Quando pesquisamos tendências, devemos analisar o modo e o momento da vida. Cultura, regionalização, crenças e valores são apenas alguns elementos de estudo. Por isso, a pesquisa de tendências não se refere apenas ao segmento têxtil e confeccionista, mas a diversos movimentos de comportamento e consumo. Já a pesquisa de coleção deve ser condizente com os desejos projetados pelo consumidor analisado. Portanto, ela integra a pesquisa de tendências, mas o seu foco está direcionado aos valores da empresa, seguindo o perfil do seu mercado consumidor”, ressalta Letícia.
As vantagens de investir na pesquisa de coleção são inúmeras e vão muito além do retorno financeiro, como adiciona a designer. “O valor da pesquisa cresceu muito. Mas é preciso salientar que essa etapa somente pode ser estratégica para o posicionamento e a possível lucratividade da empresa quando é realizada com metodologia e foco coerente aos valores do público-alvo. Só assim a pesquisa maximiza acertos e fortalece a relação entre a empresa e os consumidores”, explica Diniz.
VIÁVEL PARA O BOLSO

Em geral, as grandes empresas pagam caro pelas pesquisas que encomendam. Mas como micros, pequenas e médias confecções podem realizar esse trabalho sem estourar o orçamento? Segundo a designer do Senai, existem soluções mais econômicas. “Há vários escritórios especializados em pesquisa. Não apenas internacionais, mas também nacionais. O Senai faz parte desse grupo. Além disso, os resultados levantados são expostos em meios impressos e virtuais. No Brasil, a moda é uma realidade acadêmica, que abrange vários docentes e instituições competentes. É preciso consultá-los também. Ou seja, existem muitas maneiras de efetuar esse trabalho. O importante é não deixar de inserir a pesquisa no desenvolvimento das coleções”, completa Letícia.
Luciana Parisi, editora de conteúdo do Senac Moda Informação, dá outras dicas. “O micro e pequeno confeccionista que não dispõe de grandes verbas pode se organizar em cooperativas, grupos ou associações. Estes, por sua vez, devem providenciar a contratação de um bom profissional para fazer uma pesquisa de qualidade. O custo do trabalho poderá ser rateado entre as empresas participantes, viabilizando os custos da pesquisa e otimizando os resultados do trabalho. Outra alternativa é acompanhar as inúmeras palestras oferecidas no mercado. Dessa forma, é possível identificar as principais tendências para depois personalizar a pesquisa, utilizando a internet e outros meios de comunicação”, enfatiza.
De fato, é notório o avanço da mídia nessa área, especialmente na internet, onde o território é ilimitado. No entanto, é preciso ficar atento a outras possibilidades. “A internet é boa ferramenta de pesquisa, mas não pode ser considerada a única. Visitar sites de marcas que influenciam a moda, acompanhar formadores de opinião, assistir a desfiles, analisar campanhas de grifes famosas, entre outras ações similares, tornam a pesquisa mais rica e completa. Por isso, é imprescindível conhecer bem o público-alvo e saber lidar com a imensa quantidade de informação disponível. Pesquisar de modo seletivo e ter agilidade para acompanhar o ritmo veloz das mudanças do setor são certamente uns dos maiores desafios dessa área”, lembra Luciana.
Tanto o Senai como o Senac elaboram cadernos de tendências que trazem inúmeras informações sobre estilos, modelagens, tecidos e acabamentos de cada temporada. Além de ser uma opção mais acessível que as pesquisas encomendadas, eles são uma ótima opção de consulta pela qualidade do conteúdo pesquisado. O caderno de tendências mostrado no evento Senac Moda Informação, por exemplo, é resultado de um trabalho elaborado por um mix de profissionais da área acadêmica, administrativa e também por colaboradores que participam do encontro. “Para a elaboração da pesquisa, visitamos as principais feiras do setor, coletamos dados em portais de tendências, revistas e bureaux especializados, além das inúmeras viagens feitas no Brasil e no exterior. Para exemplificar, a cartela de cores é resultado de uma profunda pesquisa cuja base é o cruzamento de várias cartelas apresentadas em desfiles internacionais. Somente depois da compilação desse extenso material é que chegamos ao resumo das cores que vão predominar na estação”, conta Luciana. A 39ª edição do Senac Moda Informação – Verão 2013 será no dia 15 de março de 2012, no Palácio das Convenções do Anhembi,em São Paulo (SP). O evento é pago, mas o valor inclui o recebimento do caderno. Quem comprar até o dia 29 de fevereiro vai pagar R$ 810, após essa data o preço vai para R$ 900. Já o caderno de inverno 2012 do Senai está disponível gratuitamente na internet. Segundo a instituição, a pesquisa partiu das macrotendências globais, mas o grande diferencial foi o trabalho de segmentação por regiões do Brasil, pois cores, estampas, comprimentos e formas mudam de acordo com o cenário em que estão inseridos. Para conhecê-lo, acesse www.sp.senai.br/vestuario.
ROTEIROS DE VIAGEM

As viagens internacionais estão sempre em pauta quando o assunto é descobrir ou reinventar a moda. Ana Claudia Lopes, pesquisadora de tendências, professora e consultora de moda, fala dos destinos mais procurados. “As principais referências ainda são Nova York, Paris e Londres. Talvez porque essas cidades têm um pouco de tudo e oferecem maior amplitude para a pesquisa sem que seja necessário fazer grandes deslocamentos. Los Angeles e Tóquio também estão se tornando destinos cada vez mais comuns. No entanto, observo que atualmente as marcas têm escolhido locais inusitados e isso é bastante enriquecedor”. Com ampla experiência na área, Ana avalia as dificuldades que observa. “Focar em uma pesquisa mais ampla com ênfase no comportamento e não mais pautada no que as marcas internacionais estão fazendo é um desafio. Percebo que os estudantes estão muito preocupados com a silhueta da vez, enquanto as empresas que priorizam o estilo de vida se destacam no mercado. Tirar 200 fotos de vitrines não é mais prioridade e sim observar hábitos e costumes. É preciso ter uma visão macro do que acontece na economia, política, tecnologia e cultura. É isso que influencia hoje os padrões de consumo e transforma o jeito de viver”, lembra.
Depois de morar em Londres por oito anos, Ana decidiu escrever o livro Londres Confidencial: Moda, Design, Cultura, lançado em julho de 2011 e publicado pela editora Memória Visual. A proposta da publicação foi fugir do formato adotado pelos guias tradicionais, ressaltando lugares desconhecidos. “Indiquei endereços imperdíveis de moda, design e cultura. Dividi tudo em áreas para facilitar para aqueles que quisessem andar com o livro na mão e também tentei equilibrar dicas diversas para públicos distintos. Priorizei empresas e instituições que só podemos achar em Londres, valorizando assim a questão cultural. É claro que a TopShop entrou na seleção, pois já se tornou um must numa viagem à cidade, mas há outras centenas de lojas interessantes, das quais quase ninguém ouviu falar. Uma delas é a Jessie Chorley and Buddug, em Columbia Road, na qual duas meninas de Gales fazem acessórios, cartões e roupas bordadas à mão. Destaquei ainda marcas que cresceram bastante nos últimos três anos, além dos principais museus de moda e também galerias menores, que mostram artistas interessantes. Contei a história dos lugares listados, já que um dos objetivos do livro é retratar parte da cultura inglesa”, finaliza Claudia.

Para quem deseja e pode alçar voos para a Europa, o Fashion Trip Paris é uma boa pedida. A viagem que une pesquisa e cultura inclui um curso teórico que ajuda no desenvolvimento das coleções. Idealizado por Natalie Rodrigues, diretora do Bureau de Comunicação e Moda, o Fashion Trip é direcionado a estilistas e confeccionistas, entre outros profissionais que compõem a indústria da moda. “O curso divide-se em duas etapas. A fase preparatória é o workshop Cultura de Moda. Trata-se de uma imersão em moda com duração de 20 horas, na qual abordamos desde a história do setor até chegar ao cenário atual. Em seguida, partimos para a vivência internacional. O programa inclui nove dias em Paris com a finalidade de constatar o aprendizado teórico, além de proporcionar a pesquisa para o desenvolvimento da futura coleção. Fazemos assim pesquisas no varejo local e visitamos feiras, como o Salão Première Vision Pluriel, entre outras atividades”, destaca Natalie.
A empresária destaca os benefícios do programa. “Hoje a informação de moda pura e simples está à disposição de todos na tela do computador. O diferencial é conciliar o que se vê nas ruas com aquilo que é próprio de cada empresa. O Fashion Trip Paris mescla as duas experiências, pois o objetivo é gerar vivências que estimulam o processo criativo de cada participante. Na era do tudo ao mesmo tempo, é importante cada um encontrar sua própria maneira de pesquisar. Caso contrário, o resultado é a uniformização”, complementa Natali. A próxima edição do Fashion Trip Paris será de 6 a 15 de fevereiro e custa R$ 8.990,00. Acesse www.fashiontrip.com.br.
COMO ELAS FAZEM
Pequenas ou grandes, não importa. Qualquer marca que queira garantir seu lugar ao sol precisa pesquisar para ter êxito em sua coleção. A Tavex Brasil S/A, produtora de 175 milhões de metros de denim, investe cerca de 1% de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento. “Nosso processo de desenvolvimento é baseado em pesquisas de comportamento, que chamamos de signposts ou direções do mercado global. Elas analisam as macrotendências de comportamento do consumidor, sinalizando caminhos. Hoje, por exemplo, a individualidade e a originalidade são elementos fundamentais para os produtos denim, pois são uma reação à produção em massa e à uniformidade em geral. O comportamento jovem e as tendências mundiais de moda também são analisados sob os parâmetros do universo jeanswear. Buscamos entender, mas principalmente antecipar, as necessidades de nossos clientes”, conta Maria José Orione, gerente de marketing da Tavex na América do Sul. A globalização que acelerou a troca de informações derruba antigos preceitos de lugares ideias para pesquisa. “Apesar de a Europa ainda ser referência em termos de inovação, o Japão sobressai seja pela originalidade de seus jovens, que aliam a tradição de sua própria cultura a uma releitura das tendências ocidentais, seja pela experiência que possui no tingimento do índigo. Mas, em geral, todos influenciam todos. Os movimentos regionais tornam-se febre mundial em questão de segundos por meio das redes sociais como Twitter e Facebook, entre outras. Tudo isso passa a ter grande impacto sobre as tendências de moda”, comenta Orione.
Há 40 anos no mercado de underwear masculino e com uma produção de 1 milhão de peças por mês, a Mash usa como base para suas pesquisas visitas em feiras internacionais, consulta a revistas especializadas e informações colhidas pela própria equipe de vendas. Jonas Waisberg, diretor comercial, conta qual é o peso da inovação para a marca. “O mercado brasileiro é pouco inovador em moda íntima masculina. Por isso, apostamos nesse quesito como foco de diferenciação, reduzindo o timing de lançamentos. Tal estratégia foi fundamental para acelerar o crescimento da companhia nos últimos anos, aumentando assim nossa rentabilidade. Nosso investimento nas pesquisas de coleção é menor que 1% do faturamento geral. Entretanto, nosso controle não é preciso, pois o trabalho é feito diariamente, ou seja, é um cotidiano bem diferente do das confecções em geral, que somente se preocupam com isso quando estão em épocas de montagem de coleção.

Ainda que sua empresa não atinja os altos índices de produção das marcas famosas, é possível desenvolver uma pesquisa ampla e representativa proporcional ao tamanho de seu negócio. A confecção Veggi, especializada em homewear, sleepwear e acessórios, é exemplo disso. A marca, que fabrica cerca de 80 mil peças por mês, investe 1% de seu orçamento em pesquisa de coleção. Para pesquisar, foi estabelecida uma rotina criteriosa, como esclarece o diretor comercial da grife, Gustavo Veggi. “Primeiro, viajamos para coletar vários materiais, como fotos e produtos, além de fazer nossas anotações. Depois, retomamos para a empresa e começamos a trabalhar em pesquisas internas em revistas internacionais e portais da internet. Nesse momento, já estão definidos o tema e também uma prévia da cartela de cores. A partir daí, começamos a desenvolver com os fornecedores a matéria-prima dos produtos. Em paralelo, o Departamento Comercial já viabiliza ou, se necessário, veta algumas criações. A coleção precisa ser acima de tudo comercial. Isso significa que o produto deve ter uma pegada inovadora que gere mídia para a marca, mas que também esteja inserido dentro de uma faixa de preço que permita que o mercado o absorva”, revela Gustavo, que se diz otimista para 2012. Segundo ele, as expectavas são as melhores possíveis. “Em 2011, tivemos o reflexo da crise do algodão no primeiro semestre. Isso nos afetou muito, pois o produto chegou muito caro ao consumidor final. No segundo semestre, houve uma recuperação, mas o tempo foi curto. Agora, em 2012, a ideia é já entrar com uma coleção cheia de novidades. Uma delas é divulgar as estampas em 3D. Ou seja, a equipe comercial está a todo o vapor e esperamos um ótimo 2012!”
Fotos: Roselaine Araujo, Divulgação
Ilustração: Fabiana Shizue
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